English

 Quando a fotografia se me fez imagem

 
Categorias


  Todas









17 de janeiro de 2014
 Título: Quando a fotografia se me fez imagem
 Descrição: Antiga cerca de madeira iluminada pela luz da manhã
 Local: São José dos Ausentes, RS
 Data do Registro: 21/11/2010
 
      Era a primeira vez que eu viajava aos Aparados da Serra. Íamos a partir de Florianópolis na direção do Cânion Montenegro, ponto mais alto do Estado do Rio Grande do Sul. Durante a longa viagem observávamos a paisagem que emoldurava o cenário montanhoso, que ainda se recuperava do rigoroso inverno daquele ano de 2010. Já era primavera, mas era possível ver na vegetação e na pelagem dos animais as marcas daquela estação; afinal estávamos a mais de 1.400 metros de altura. Lugares lindos aqueles.
      Estava na hora do almoço quando chegamos à Pousada. A Beth e o Mário, os proprietários, já estavam nos aguardando com sua família e empregados, com um tradicional almoço serrano. Foram momentos de confraternização e descontração que antecipavam a jornada fotográfica do período da tarde.
      Nestas incursões fotográficas aos Aparados da Serra em São José dos Ausentes, era talvez o grande momento que nós, alunos do Curso de Fotografia, tínhamos para aplicar as técnicas apreendidas durante os meses anteriores. A natureza própria das altas altitudes, o relevo montanhoso entrecortado pelos rios e os desfiladeiros dos cânions permitiam muitos momentos de empolgação, onde todos compartilhavam entre si as descobertas que faziam em cada uma das novas aventuras com suas câmeras. Minha experiência não foi diferente.
      Após o almoço e acomodadas as bagagens, fomos até a Cachoeira do Perau Branco. Alguns foram a cavalo, enquanto outros foram de micro-ônibus. Incrível a escultura feita pela própria natureza na formação daquela queda d’água, tendo como agente o rio Sepultura que vem traçando por entre aquelas montanhas uma verdadeira obra de arte. O som da água que caia por entre as rochas dava o tom daquele ambiente ainda completamente preservado da interferência humana. A inclinação da luz da tarde tornava aquele lugar em um perfeito cenário para nossos primeiros contatos com a natureza do local. Cenário da mais pura beleza, que resultou em imagens belíssimas para todos.
      De volta à Pousada no fim da tarde, mais momentos de descontração da turma durante o jantar. Novamente foram servidas as especialidades da gastronomia serrana nos fizeram mais uma vez surpreender.
      Ficáramos ainda até tarde da noite fazendo umas tomadas fotográficas de longa exposição. A temperatura insistia em se manter baixa, mas a animação dos seis ou sete que ali ficaram fazia o frio ficar em segundo plano. Resultaram em fotografias singulares da Via Láctea, do céu, do movimento das estrelas com a rotação da Terra, das araucárias iluminadas com lanterna, da Pousada com a pouca luz ambiente... tudo era novidade pra nós.
      O que talvez tenha feito a grande diferença para mim durante toda esta viagem, foi o acordar do dia seguinte. Estava escuro ainda, passava das 6h00 quando abri a porta que dava para a rua e espiei para ver como estava o tempo lá fora. Havia ainda uma certa neblina da noite e o frio era intenso; mas o que me surpreendeu mesmo foram as ovelhas que lentamente livres passavam logo à frente da minha porta. Sem muito raciocinar, rapidamente, voltei ao quarto coloquei uma roupa quente, peguei a câmera e saí para a rua. O frio era muito forte. As ovelhas já haviam se afastado, mas ainda foi possível fazer alguns registros delas.
      Foi quando me lembrei que eu havia combinado com o Mário e a Beth que iriam me mostrar como eles fazem o camargo; um costume comum entre os serranos, que durante a ordenha das vacas, tomam um café muito quente e bem forte com o leite tirado direto do animal. Tomamos o camargo, conversamos um pouco, mas eles tinham os outros afazeres que antecedem o café da manhã dos hóspedes. Como ainda faltava uma hora para o café, agradeci e saí do estábulo.
      Havia um grande silêncio no ar, que somente era quebrado pelos passarinhos em busca de alimentos. Olhei em círculo e não vi mais ninguém; só eu estava fora da Pousada. Já começava clarear, e mesmo com a pequena neblina que havia foi possível olhar ao redor e observar aquele incrível cenário. A paisagem serrana tem algo a mais, difícil de ser definido em palavras. Acredito que seja o reflexo de uma série de elementos que a compõem: a severidade das condições climáticas que influencia na vegetação que resiste, nos diferentes tipos de utensílios e instrumentos que são usados na lida diária, no relativo isolamento que as pessoas vivem, no contato direto com a natureza, na distância dos grandes centros que permite a preservação dos hábitos e costumes... Uma paisagem que reflete bem a dureza da vida serrana, mas que ao mesmo tempo traz algo de fascinante para aquela paisagem.
      Comecei então a registrar alguns detalhes aonde já havia mais luz. E uma após a outra, as imagens foram acontecendo. Mas o que mais me marcou, e que eu aplico até hoje nos meus trabalhos de campo, é a alta concentração que me surgiu de maneira completamente inesperada: um olhar mais atento, uma conexão direta com o ambiente ao redor... E os detalhes começaram a surgir num verdadeiro processo sintônico de diálogo com objetos, cercas, janelas, paredes, o orvalho, as barbas-de-velho, o tempo decorrido... um processo como se estivesse eu sido literalmente transposto a outra dimensão; aonde não existe mais sensação de frio, fome ou sede, onde impera o silêncio, onde não se é mais o dono da sua própria vontade e sim um instrumento conectado a uma energia maior, um lugar geométrico onde o espaço e o tempo passam a ter outras dimensões: passam a ser sagrados; tema que mais tarde fui estudar nos escritos do filósofo e historiador Mircea Eliade.
      E como resultado, belíssimas imagens começaram a fluir, uma após a outra; uma das quais, e que eu considero como tendo sido a primeira deste novo processo para mim, que está postada na parte superior desta página: imagem monocromática de uma velha cerca de madeira iluminada pela linda luz da manhã.
      Existem momentos que são marcantes em nossas vidas, momentos como este; muito diferentes para um engenheiro que até então estava mais preocupado com as técnicas que envolvem o fazer fotografia, e que agora estava tendo a oportunidade de, pela primeira vez, ser apresentado ao que realmente é a Fotografia: quando ela se transforma em imagem. Imagem daquilo que registramos, imagem daquilo que percebemos, imagens daquilo que somos... quando percebi que a fotografia a mim se fez imagem.
      Esqueci do tempo, e quando fui chamado para o café da manhã tive que me apressar pois todos já estavam terminando e se preparando para irmos ao Cânion Montenegro, que fica a 2 kms da Pousada.
      Foi especial a visita ao Cânion. O tempo estava limpo e sem nuvens, o que permitiu uma visão ampla da encosta da Serra e de várias cidades do litoral Sul de Santa Catarina, já que o Cânion fica localizado na divisa dos Estados.
      A volta para casa incluiu uma passagem pelo Cachoeirão dos Rodrigues, que também está localizado em São José dos Ausentes, é formado pelo no rio Silveira que cai por 28 metros sobre uma larga estrutura rochosa escura com grande volume de água. O cenário da região contém um relevo desenhado por montanhas de vegetação rasteira e algumas araucárias, descrevendo uma paisagem preservada no tempo: completamente atemporal.
      Na viagem de retorno a Florianópolis havia um ar de satisfação, de dever cumprido. O cansaço também já tomava conta de todos, e o longo percurso nos permitiu refletir e sonhar com as grandes experiências que tivemos naquela viagem.
Depois desta primeira viagem, já voltei outras três vezes aos Aparados da Serra acompanhando o pessoal do Curso de Fotografia. Um lugar que sempre me surpreende com novas experiências na arte de fotografar.


Ruy Luiz Machado


Ofereço este relato ao professor André Sielski, grande amigo, fotógrafo, mestre e entusiasta do bem fotografar.

 


  © 2018 Copyright de Ruy Machado. Todos os direitos reservados.