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 Pela areia das praias: a primeira rodovia

 
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20 de janeiro de 2015
 Título: Rastro de pneu na areia da praia
 Descrição: Praia da Armação, no Sul da Ilha de Santa Catarina
 Local: Florianópolis, SC
 Data do Registro: 24/10/2010
 
      É quase inusitado imaginarmos que, antes da existência das atuais rodovias, asfaltadas ou não, num passado nem tão distante, a interligação rodoviária entre algumas cidades litorâneas pudesse ter sido feita pelas praias, e de maneira costumaz. Ou seja, pelas areias das praias circulavam carros e até ônibus intermunicipais e interestadual.
      Favorecidos pela existência de praias com uma larga faixa de areia à beira-mar, o litoral sul do Estado de Santa Catarina e o litoral do Estado do Rio Grande do Sul permitiam que esse tipo de transporte fosse feito.
      E esta foi a tônica de uma conversa com meu pai há alguns dias, em que ele me contou um pouco sobre meios de transporte disponíveis na cidade de Imbituba naquela época.
      Meu pai é filho de tradicional família imbitubense. Seu pai, o empresário Manuel Florentino Machado, foi figura lendária e de grande destaque na região. Entre os seus feitos, empreendeu a primeira linha de ônibus da região fundando a Empresa Auto Viação Glória.
      Talvez por ter nascido e vivido parte de sua juventude convivendo com a praia, com ritmo do vento Nordeste e com a poética da portuária Imbituba, mantenha até os dias de hoje uma relação tão próxima com o mar; mesmo não morando há tantos anos junto à praia. E talvez, também seja este o motivo que propicie tantas recordações, como as viagens que fez de ônibus pelas praias entre Imbituba e Laguna, e mais tarde até Porto Alegre.
      Considero importante que memórias como estas estejam presentes no trabalho que desenvolvo sobre a imagem da história e da cultura do povo catarinense.
      Neste sentido, solicitei que ele transcrevesse alguns detalhes daquelas viagens, o que ele prontamente fez conforme a seguir.
Ruy Luiz Machado



       “No início da década de 1940, a ligação entre Imbituba e Laguna era feita basicamente de duas formas: pelo mar ou por via férrea. Pelo mar havia um navio denominado Max que fazia a ligação marítima entre os portos das cidades de Laguna e Imbituba até Florianópolis, onde ancorava nas proximidades do Rita Maria; região central da cidade. Para as grandes cidades da costa brasileira, era exigido um transporte náutico de maior porte, o que era realizado pelas empresas: Companhia Nacional de Navegação Costeira e Companhia de Navegação Lloyd Brasileiro. Já por via férrea, além do transporte de carga, e principalmente de carvão, havia também o transporte de pessoas.
      Como alternativa aos poucos horários disponíveis e do longo tempo que estes transportes dispendiam, foi que surgiu a empresa de ônibus do meu pai, a primeira interligação rodoviária entre Imbituba e Laguna, que era feita pelas praias. O deslocamento era realizado através das três praias existentes: Praia da Vila, Praia do Meio (ou Praia Grande), e a Praia do Gi.
      Trafegar só era possível nos dias em que a maré estivesse baixa, pois quando o mar ficava agitado em função da ressaca, tornava-se impossível. Além do problema da maré alta, era muito comum que os veículos atolassem durante a viagem, e para isto vários fatores contribuíam. Um deles era a própria movimentação da areia das dunas, que com a força dos ventos, acabavam chegando até a beira da praia. A areia fofa, seca ou molhada, também era um problema constante. Outra adversidade eram as esteiras, espécie de tapetes feitos com palha, e que ficavam localizados na transposição das praias para os centros urbanos. Em igual medida, quando a areia das dunas cobria essas esteiras, com os fortes e frequentes ventos da região costeira, faziam com que os veículos quase sempre atolassem, tornando o trajeto ainda mais difícil, e exigindo mais da perícia dos motoristas. Nestas situações de atolamento, além dos motoristas, os próprios passageiros ajudavam a empurrar os veículos.
      Sem contar a ferrugem dos automóveis e dos ônibus, causadas pela ação da água salgada do mar e pela maresia, por vezes havia os problemas mecânicos, exigindo que a manutenção fosse também feita pelos ocupantes do veículo, e além disto, no local onde aconteciam: na beira da praia!
      Tudo isto, tornava as viagens verdadeiras aventuras, pois os passageiros e os motoristas nunca podiam saber exatamente se as condições da natureza iriam permitir uma viagem tranquila.
      Na época, o transporte preferido era o ferroviário, pois o mesmo ligava Imbituba a Araranguá, passando por Laguna, Tubarão, Criciúma e outras localidades; tendo como inconveniente o elevado tempo das viagens.
      Com o passar dos anos houve a abertura do trecho entre Jaguaruna e a Barra de Laguna, permitindo que o acesso rodoviário pelas praias fosse estendido até Tubarão. A partir daí, os veículos eram transportados através de balsas, prática que perdura até os dias atuais.
      Na década de 1950, a primeira ligação pelo litoral entre Florianópolis e Porto Alegre foi possível. Por serem praias de mar aberto tinham uma faixa de areia mais larga, sendo portanto, mais propícias ao tráfego. Mesmo assim, padeciam dos mesmos problemas que as praias catarinenses com relação às esteiras e às ressacas, fator que muitas vezes prolongava por mais algumas horas o já demorado percurso.
      A viagem até Porto Alegre, que fiz por algumas vezes, tinha um percurso que dispendia de 12 a 14 horas de ônibus, sendo que uma parte do trecho entre Araranguá e Porto Alegre era feito pela praia: 60 km entre Araranguá e Torres, e 90 km entre Torres e Tramandaí; continuando até Porto Alegre por estrada pavimentada. Para que isto fosse possível, foi fundamental a implementação de balsas para transpor os rios: Tubarão, Araranguá e Mampituba; nas cidades de Laguna, Araranguá e Torres, respectivamente. Devido à longa duração da viagem, era obrigatória uma parada para um lanche em Santo Antônio da Patrulha.
      Felizmente já nos primeiros anos da década de 1940, foi concluída uma rodovia afastada das praias, que definitivamente resolveu esses problemas. Construída nas imediações da estrada férrea, era uma estrada de chão batido que ligava Laguna até a localidade de Vila Nova, em Imbituba; interconectando-se, a já existente, estrada entre a Vila Nova e Florianópolis. Mais tarde alguns trechos desta estrada seriam transformados na BR 101.
      Vale a pena lembrar que o transporte aéreo para a região foi implantado no final da década de 1940; por volta dos anos 1948 e 1950. Eram hidroaviões que faziam a ligação entre Porto Alegre, Araranguá, Laguna e Florianópolis. Lembro de muitas vezes ter visto estes aviões amerissando na Baía Norte em Florianópolis.
      E assim descrevo um pouco daquela época e dos meios de transportes que havia. Muita coisa mudou, muito além do que qualquer visionário pudesse antever. Hoje, com um mundo tão interconectado e que se movimenta com tanta velocidade, talvez valha a pena darmos uma pausa e observarmos o que e o quanto já foi realizado no passado, e como foi a sua evolução desde então; e revendo a história refletirmos um pouco mais sobre o que há por fazer."


Oduvaldo Florentino Machado




Geo Codes:
- Araranguá: 28° 56' 06" S 49° 29' 09" O
- Florianópolis: 27° 35' 49" S 48° 32' 56" O
- Imbituba: 28° 14' 24" S 48° 40' 13" O
- Laguna: 28° 28' 58" S 48° 46' 51" O
- Porto Alegre: 30° 01' 58" S 51° 13' 48" O
- Santo Antônio da Patrulha: 29° 49' 04" S 50° 31' 12" O
- Torres: 29° 20' 06" S 49° 43' 37" O
- Tramandaí: 29° 59' 06" S 50° 08' 02" O
- Tubarão: 28° 28' 01" S 49° 00' 25" O


 


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